segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O relógio marca a hora da lembrança doída que tenho de ti.


O relógio marca a hora da lembrança doída que tenho de ti.
Seus ponteiros deslizam com uma vagareza impensável,
Saem deles líquidos sudoríferos que penetram minhas narinas
E tocam meu cérebro despertando-o em minha memória de um modo que me fascina.

Gosto disto, desta marcação temporal que me indica tua presença surreal.
Estás tão aqui quanto estás aí, na alcova que te acolhe, fazendo às vezes deste amante solitário.
A plástica do lugar afortunado me envolve de uma espessa e obtusa agonia.
Quereria ter-te e só me sobram imagens, nada mais que isto. És ausente nesta presença dormente.

Mesmo dando conta de tua inércia frente à força do tempo, não consigo concordar com tua isolada e contraditória condição.
Quando menos espero ressurges em mim por poesias que saltitam em meu ser palmilhado de incertezas quanto ao teu relógio:
será que ele roda a meu favor ou não possui de tua parte um mínimo de sensibilidade? Será que se esqueceste de dar-lhe corda?

Vens em mim como um abutre. Rasga-me com voracidade. Não respeitas nem meu Leão de chácara.
Usurpas minha alegria de ser senhor de mim e de ter-me num equilíbrio falseado.
És covarde! Por isto grito “Quo vadis?” Pra mim ou pra si?

O relógio continua a pontear... É hora de olhá-lo e, a despeito do que sinto, assusto-me.
Não consigo controlar aquilo que minha pretensão infame insiste em dominar.
Ele se irrompe trazendo-te a mim com uma candura tão convencível que acabo por esquecer o tempo.

O que sinto por ti ultrapassa o senso automático dos dígitos de alguns relógios. Não posso te medir.
Estás à altura de minha torpe comensuração. Para além de tudo que se circunscreve e se estabelece no espaço que ficou aquém.

Agora eu sei o porquê que o insistente relógio teima em trabalhar e me irrequietar.
Ele não me levava pra fora com suas setas; ao contrário me trazia pra dentro com suas retas.
Estás em mim, no bojo de minha constelação. Fazes movimentos unívocos. Pulsas como um ser estelar e eu, vislumbrado com tua quinta grandeza, circulo-te numa ingênua rotação.
Na verdade bate no meu coração o desejo de viver-te sempre em uma perene translação.

FCF
01/12/2007 THE-PI

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