sexta-feira, 30 de julho de 2010

Amar, não!


Em plena avenida te encontro à deriva
Estendes a mão! Assinalas a quem passas, o teu chão.
Entras no carro e saúda-me com deferência
Mostra-te uma pessoa educada, porém calada, cheia de segredos,
és uma escamoteação.

Convido-te a ver uma película, está quase na hora
Corremos um pouco! Dei-te um beijo, então gritastes:
Cuidado! Se demorarmos veremos apenas o vácuo.
Com este outro sinal, afastei-me e segui à sessão.

Dentro da sala, pipocas, líquidos e apreensão.
Tento novamente?! Toco sua tez, mas o casal vizinho nos desentoa.
Insisto mais uma vez e você na tela, toda absorta.
Percebi, com isto, que tudo o que faço fica em vão.

Compreendi que de teus lábios brotam pontes
Estas passam por sobre o abismo de sofreguidão.
Ouço-te dizer-me: venha logo, amor insano.
Quando, no meio da ponte, sinto no meu peito tua mão.

Tu me chamas sempre! Sinto a cada dia!
Entretanto, entre carinhos e afetos, ouvi teu coração gritar com todas as letras:
Amar, não!

F.C.F
The-PI
26.07.10

terça-feira, 20 de julho de 2010

Santo casamenteiro


Na mudez taciturna da noite um celerepe pulsar
É o coração do caboclo que volta pra casa a suspirar.
Desce por seu semblante acobreado o suor que há de cortar,
Por dias a fio, a pobre roupa que teima usar.

Este suor e esta sôfrega e descontrolada respiração
É sinal de que alguma coisa lhe feriu o coração.
Tal honrado trabalhador volta da festa do Santo com a lembrança
da reza, dum rosto e duma canção.

Em tal quermesse de desobriga viu aquela que fitou com admiração.
Ela será a água que matará sua sede de um só gole
lhe fará refestelar em suaa talha, quiçá um dia, enriquecida,
Com sua doce presença ao seu lado em seu Cantão.

Tal donzela, se aceitar sua convocação, tornar-se-á
a lua que faltava em sua noite por ora entristecida.
Rogue por ele, ó forte Sto. Antonio, casamenteiro.
Ajude-o a conquistar tal sinhazinha e a seu pai, terrível guerreiro.

Ele prometerá rezar uma missa e ser teu devoto festeiro.
Se seu pai abençoar seu pedido e se ele se casar com ela,
A tua festa de Junho já estará pronta desde o nosso pequenino fevereiro.



Fábio Carvalho Fernandes
THE – PI
15. 02. 07

Não suma


Havia um par que se sentia atraído,
de um modo recíproco em lugares recônditos,
mas, pela força do amor, eqüidistantes.

Cada um anelava o outro de modo tão intenso que era possível sentir a ofegância do amado nas correntes de vento que balançavam os cabelos da amante.

A cada palpitar ecoava por entre oceanos e cordilheiras,
Uma pujante exclamação: Não suma!
Era um desejo tão intenso que saltava os Pirineus.

Uma busca incessante solapava seus corações.
Sentados em zonas díspares construíram em seus sonhos e projetos futurísticos pontes como outrora.

É a continuidade da frenética renovação
que se nos impõe o amor.
Ele nos faz procurar romantismo em nossa complicada vida.

Por isto, para minimizar as tormentas do cotidiano conclamamos os seres naturais para que sejam os mensageiros de nossa voz ulterior e perene.

Mudai ventos do norte com seu calor irrequietante e soprai bem lá no labirinto de quem eu amo a ponto de desequilibrá-la com meu grito passional.

“Não suma com o vento”, querida! Volte com as chuvas de verão. Molhai-me com suas gotas de paixão e me fecunde com seu amplexo tórrido e eleve minha pulsão.

Raios no mar revolto que se traduzem em borrasca
rasguem as distâncias, dilacerem a escuridão
ultrapassem a tempestade, lancem-me de volta ao chão.

Tufões façam tilintar os ferros de minhas cadeias
transmutem-me desta tormenta, ilusória prisão,
ao colo de meu amor, embalem-me com o canto das sereias.

Por que amar? O porquê de tanto sofrimento nesta terra?
Onde está a facilidade propalada,
por tantos que se dizem saber o amor dominar?

Como podem propagar este erro,
que nada mais é, neste curso a seguir,
um mero, inequívoco e ledo engano.

Eu não quereria mais amar; não!
Não gostaria de ter minhas entranhas dilaceradas
com tua beleza, por vezes, por ti somente, olvidadas.

Sim, por ti, eu não te esqueço, beleza!
Encantaste-me com tamanha leveza que me fez crer
Que o meu céu só tem você por certeza.

Permitam-me, então, forças do amor,
defender-me de vós mesmos, Eros travesso,
que me enganas lançando teu dardo faceiro.

Não! Não te quero mais em minha companhia.
Iludiste-me fazendo-me amar “a filha do vento”.
Ela transtornou o meu ser e, hoje, grito com maestria.

Quero ter a certeza de que conseguirei
me reerguer e que “os pequenos pedaços
de minh’alma finalmente retornarão”.

O que me dizes agora? Pois eu já sei o que te dizer.
Procure rever teus sentimentos por mim
E de uma vez por todas e com garra me assuma.

Entrementes, ao termo de minha vida
Eu te verei responder o meu anelo:
Não suma com o vento, querida. Não suma!

F.C.F
THE-PI
21/09/07

Momentaneamente destruído


Estava eu diante do homúnculo vermelho do semáforo.
Ele indica minha estagnada situação.
Contemplava quem passava como noite turva.
Invadiam o meu espaço, mas não as via ante mim.

Meu pé hesitava! Era o convite das faixas paralelas
Que alisam brancamente o piche cor de Ébano.
Convidavam-me à obediência e ao encorajamento.
Havia barulho ao meu redor enquanto tudo era silêncio.

Com meus lábios cerrados falava aos outros sobre meu ser.
Encorajei-me, então, e me lancei ao outro lado.
Enfrentei aquele rubro ser que me impossibilitava.
Avancei para a outra margem e segui ao jardim dos humanos.

Quero a vida e não a morte zumbida
É preciso vivê-la na emergência do convite.
Tenho que andar, andar...
Lá, onde não existe, saberei que o que escolhi implicou o esquecimento do que deixei.

Antes, ao ter, nada possuía.
Hoje havendo nada tenho,
A não ser este ser momentaneamente destruído.

F.C.F
28/01/2008
BH/MG

Ausentes


Ausentes e por isto carentes.
Lançamo-nos no hall do mundo à procura do que não se sabe,
Em estupenda competição com os pares que me emergem como
Pretensas dádivas da vida ardente

Num embate desejo construir o nós sem antes sermos eu e tu.
Envolvemo-nos num looping estonteante. Gastamos nossas energias em elucubrações vãs e estéreis.
Não sabemos mais quem somos e nos perdemos de nós mesmos.
Nossos anéis não possuem mais dedos, só o medo do ausente.

Após a perda, a busca contínua e silente.
Em meus lençóis, sobre meus travesseiros, minhas lacrimosas confissões, e isto tudo por detrás das cortinas que impedem o sol visitar esta retina.
Vivo à sombra, numa penumbra, fui eclipsado por um amor cansado.

Dum apartamento-casulo saio às ruas e fujo dos embates tórridos e mesquinhos.
Tapo meus ouvidos com minhas mãos abertas. Não quero ouvir, mas ouço o amor que outrora me chamou e que hoje me engana.
Refratado buscava não você, mas um eu ensimesmado.
Era minha imagem ou extensão de mim. Às vezes cria que te amava, contudo, vejo hoje, que muitas vezes era a mim que venerava. Descobri que sobre ti meu altar de mármore de Carrara não te amava e sim me adorava entre incensos e sons de Omara.

F.C.F
09/12/08
BH/MG

Senhora do amor oblativo e sereno

És tão intensa que chegas, como a jabuticabeira,
a oferecer-me teus frutos ao longo do teu corpo esguio e farturento.
És senhora do amor oblativo e sereno.
És então dona de meu coração com seu precioso terreno.
F.C.F Mons. Gil - PI
09/11/2008
“A palavra me obriga dizê-la”.

F.C.F
01/04/07
The – PI