domingo, 9 de novembro de 2008

Vento e Catavento



Parou o sino, parou o sino
e eu volto para casa,
triste com o meu destino.
Roda com o vento, roda e
faz o vento, roda e traz o vento;
e corta meu coração com um catavento.

F.C.F
THE-PI
12/10/08

sábado, 8 de novembro de 2008

cegueira



Acordo envolto em mundo e sinto-me imundo, pois algo em mim tem um tamanho profundo que me impede de enxergar o fundo dos que me cercam e de tudo que há em meu ser orgulhosamente rotundo.

A sensação aumenta quando elevo minha mão ao meu rosto; ou será à minha máscara, que se revela nesta escuridão que me inunda como um mar ora branco ora de águas turvas? Fico navegando neste mar ignoto sem me entender.

Levanto-me à busca de mim e passo a andar trôpego onde antes era meu porto e sinto que o chão denso tornou-se num pântano sôfrego que me faz medo de irrompê-lo, então, fico quieto aguardando em meu degredo.

Como posso estar assim se antes eu via o que ninguém imaginaria. Será que via ou fingia para ser aceito naquele mundo pseudo onde quem tem um olho é rei? Não sei. O que sei é que me movi, não só eu, mas os meus que há no fundo labirinto de mim.

Emergiram daquela movediça argamassa seres outrora amordaçados. Cada um começa a grasnar seu nome e assim se agitam criando no intimo uma náusea frente ao que nunca vi. Estabeleceu-se a cegueira...

Tento sair de meu quarto, mas não encontro solo e sim pontes entre um passo e outro. São abismos abaixo. Profundos e famintos. Ouço com o pouco de sensatez que me resta o rugir de seu estômago. Devorar-me é seu prato favorito. Querem-me cru,cozido ou frito.



Mas reajo ainda neste sofrimento imensurável. Venço até a porta todos os obstáculos, chego à soleira do meu limite e vejo (risos) que o que era imóvel, a casa e suas paredes se moveram para longe. Era aqui minha casa agora é de minha estranha vizinha. O que me resta à frente é o desconhecido. Um trôpego destino.

Corajosamente vou enfrentando aqueles espectros que com seus latrocínios vão me roubando de mim e matando-me com as armas de minha arrogante pretensão de tudo saber e que agora para nada me servem a não ser entender que nada fui quando imaginava tudo ver.

Ultrapasso-os agarrando-os um a um e o que eu sinto? Eles são, todos, partes de mim. Devolvo-os todos numa ação centrípeta lançando-os no útero oculto sem fim. Nesta ação bélica a constatação. Desta luta homérica, metade perdi.

Saio à cata, tropeçando naquelas coisas que deixei todas ali. Elas estavam lá. Eu mesmo as arrumei com meu jeito obsessivo de tudo organizar. Eu as arrumei lindas como cartas de baralho superpostas. Agora as sinto no chão. Vivo o meu vão.

Deste rasga à cima a náusea. Estou atônito mas não posso ver as coisas ensimesmadas que de tão unidas cambaleiam num carrossel ridículo e plastificável. Não vejo. Meus olhos não escrevem as cores com sua pluralidade. Eles não captam com sua retina o que é dado como sendo sua função. Agora agüento esta sina.

No meu cristalino só a confusão de uma pedra falsa e fina. Ela não é mais frágil. É uma pedra pobre. Ele é também atingido, pela treva com sua adaga escusa, e eu agitado por esta dor traiçoeira que me visita grito: até tu bruta?!

Chego à porta e sinto a maçaneta. Que alegria e alívio! Caricias aparecem no que antes era só um objeto desprezível e ocasionalmente palpável. Submerge a metafísica rechaçada. Não há mais metafísica do que sentir a porta se abrir por uma maçaneta outrora sempre desprezada.

Lá fora, quando deveria ser eu sempre dentro, sou tomado por uma rajada de seda. Toca-me o calor de Teresina. Esta minha menina sempre quente me aguarda e me fascina. Sinto, o vapor, respirando por meus poros suados por temer o desconhecido. Minha metade fugira de mim. Sou agora um fruto carnificina.

Tens meia hora pra voltar ao meu salão enternecedor. Preciso de ti pra ver. Antes me via contigo; hoje sou cego “sem tigo”. És de meu campo, o dourado trigo que balança ao fragor de minhas lufadas de amor. Volte! Volte olhos pra seu condor.



Era com você que me e te contemplava num espelho vitoriano. Hoje, neste, só vejo um engano. Vejo máscara e não rosto. Escondia-me em minha arte encerada, agora, depois desta convulsão instaurada, vejo-me sem a cera que me mascarara. Na sinceridade de meus anos contemplo o granjeio da loba idade. És de meu todo a falta, a arte, a dádiva; da cor gris por um instante imenso à cor escarlate neste istmo vibrante e sereno.

Sinto-o voltando num pingo d’água refrigerante. Toca minhas pálpebras... Um gemido. Entre lábios convexos um sorriso. Instaura-se um lapso... Agora um balido. Posso não olhar e sim, de mim, com alegria, ver, enxergar e finalmente as coisas no seu núcleo contemplar.
F.C.F
The-PI
07/11/08