segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Edith Piaf


Brilhou no céu da França um par de olhos azuis que viria ficar, por um período, fechado à luz que tanto desejara, a ponto de nortear-se depois no curso de sua existência pelo brilho da mesma com feições tão singulares que teria por marca a tragicidade existencial que só os intensos possuem. Assim é o viver para os seres de olhos tão cintilantes que vivem a vida na linha dos segundos, sob as luzes reveladoras da ribalta. Neste palco de dimensões incomensuráveis e ao mesmo tempo diminutas fazemos transcorrer a arte de viver.

Contudo, incrustado nos desígnios do Alto, aqueles olhos obnubilados, voltariam a enxergar aquilo que só os sensíveis são capazes de entrever: a lógica escusa que há nos bastidores do cotidiano. Ver para além das aparências expostas nas vitrines das grandes avenidas que nos levam às acrobacias dos que não se querem adensar. Levam-nos às arquibancadas, pois de lá contemplamos palhaços deprimidos que vagueiam por passarelas vazias e de extrema futilidade.

Contra isto ensejo viver sob a égide do amor, ao som de um acordeonista e dançando Java. Nada há de melhor! Entregar-se passionalmente às lições que só um dia após o outro pode nos granjear. E o que eles nos ofertam? O saber-se de si e de que nesta trajetória devemos apostar todas as nossas fichas e nela, de uma forma salutar, construir as árias de nossa ópera. Viver é interpretar com visceral paixão a missão que Deus mesmo nos incumbiu de arquitetar.

Construímos, então, amores. Amar é nossa missão! Contudo aqui começa o espetáculo trágico de nosso devir. Ao se levantar as cortinas desvelam-se ante nossos olhos, sempre azuis, o novo que se irrompe de quaisquer de nossos atos já que ele fora depositado por um Ourive no coração do nosso coração. Por isto é trágico viver! É intenso! É fascinante, mas doloroso, chegando mesmo a ser dolorido, pois nossa carne sente os entraves das paixões sedutoras e fúgidas; não é caminho do amor neste trânsito se eternizar.

Assim, acredito-me que haverá um céu sem problemas onde Deus reunirá quem se ama, todavia, neste presente século e noutros por vir, seremos seviciados até a dor por amores iguais a noite que tardam em nos entregar o dia pleno dos que são contemplados com a rara reciprocidade no amar.

Ah! Amar cansa, mas ainda assim sou capaz de fazer um hino ao amor. Por isto, com uma echarpe ao ombro ouço no globo o ecoar de um imperativo debalde todas as experiências doídas registradas em livros, canções, filmes e afins: Amem! Crianças, jovens, adultos e senis, amem; até morrerem de tanto amar. Pois quem morre de amor há de vislumbrar a eternidade daqueles pulsos que irão as galáxias transverberar.

Teimo em dizer que diante da perplexidade que este milorde insiste em nos causar, eu não me arrependerei jamais. Continuarei nesta e noutra vida a te amar. No instante último de minha vida, naquela ponte atraente que me leva ao outro lado através de sua jactância inconfortável, posto que a mesma não suporta quem nela queira estacionar, reunirei, então, todos os meus souvernirs e entrarei na grande avenida que são os Campos Elíseos e de lá, daquela bela estrela de avenidas, poderei ver ao longe a torre que me faz estarrecido frente ao meu destino que geme por meu retorno.

Pleno! Voltarei cheio de novidades e contarei aos anjos, que outrora buscávamos descobrir seus sexos, as peripécias de ser humano; simplesmente humano. Que coisa engraçada me ocorre. Falo como se os anjos tivessem inveja de nós... Só que eles a têm! Eles não podem tocar, cheirar, beijar e com o outro exalar por suas glândulas o cheiro dos feromônios que nos fazem entender que por toda a vida o nome do nosso amor, loucamente, não pararemos de bradar.

Esta foi a vida de tantos que nos precederam e de tantos que nos sucederão. Esta é a minha vida! De armas em riste, prontas para este combate ganhar. Como diria o Poeta: Viver é lutar!

Sou feliz! Vivo, entre pachorras e humores alternados, uma oração intermitente e peremptória. Peço com a vivacidade de minh’alma que meu amor fique comigo até que nossos dias sejam um uníssono. Entretanto, exaspero um pouco em minhas preces e percebo que só são palavras e que me porto como um infante ingênuo e falaz.

Entrementes, faço hoje um pacto de sangue entre mim e todas as pessoas que amei, amo e irei amar. Como são muitas, a cada, uma gota de meu sangue irei derramar. Com elas estabelecerei que mesmo que elas não me amem como eu as amo... Insistirei em amá-las, contrariando todas as possíveis frustrações e ultrapassando as muralhas desta vida trágica e lânguida. Mesmo que palmilhe aquela via cor de rosas que alguns afortunados trafegam por deferência do Olimpo, eu nunca deixarei fugir de minha memória a certeza de que a vida - bela tragédia com seu palco- jamais me abandonará.

Ela se encantou por mim e me fez pedra frente aos seus olhos de Medusa, contudo, com a rigidez dos que se fecham por só possuírem o azar dos amores eu faço minhas as palavras daquela que como eu ultrapassou ufanamente o seu arco do triunfo e viveu horrendamente o seu coliseu do amor. Amem! Diria eu. Amem! Disse-nos, com seus belos olhos azuis, a trágica e indefectível Edith Piaf.

FCF
09/12/07
THE-PI

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